João Pinharanda, 1995

A obra deste escultor insere-se na vasta e produtiva história dos movimentos concretistas e neoconcretistas brasileiros. Nesse sentido, é uma obra que, embora surgida numa periferia artística e cultural (ou mesmo “civilizacional”), nega a inserção em qualquer tipicismo etno ou antropologicamente “correto”, documental ou ilustrativo de uma situação marginal, situando-se implicitamente na continuidade histórica desse centro – ou seja, na continuidade da tradição modernista dos anos 10-20, das experiências tatlinianas, pevsneriana e seguintes. Esta atitude estética e também ética introduz um dado importante na análise (até sociológica) de parte da mais importante produção brasileira (ou melhor, sul-americana); e não apenas na análise da obra de Ascânio. Como se através da dicotomia estabelecida entre a produção de Camargo ou de Soto (por exemplo, e a de Oiticica ou de Campos, por exemplo) se explicitasse a separação trágica de uma sociedade marcada por atavismos arcaicos vários, miscigenações sociais e culturais mas marcada também por uma imagem de Primeiro Mundo – as cidades e a arquitetura modernista… É exatamente a modelos de realização arquitetônica que se referem, num primeiro momento, as esculturas de Ascânio. Na presente série de trabalhos o próprio título, Piramidal, acerta com essa referencia – ao mesmo tempo que se aceita a ideia de monumento/monumentalidade. O desenvolvimento empírico das formas, a sua complexificação a partir de planos quadrados ou retangulares ou triangulares a definição dos perfis das peças, indicia o valor escultórico do trabalho. Ao explorar, de modo consciente, os valores textuais e cromáticos dos perfis das madeiras que constituem as suas complexas construções, Ascânio introduz ainda uma dimensão pictural (que as peças não envernizadas ou envernizadas em mates realçam de modo menos decorativo). Finalmente, nas peças mais recentes, ao utilizar módulos metálicos, o escultor afasta-se de modo mais evidente quer da manualidade de processos quer da materialidade naturalista das obras – quer dizer, dá sentido mais eficaz aos seus próprios pressupostos de trabalho.

[texto publicado no jornal Público, Lisboa (Portugal), 24 de junho de 1995]