Elemento e princípio

Frederico Morais, 1969

Arte Construtiva = elemento + princípio. Se tomarmos Mondrian como exemplo, veremos que os elementos em seus quadros são as três cores puras e as linhas verticais e horizontais e, princípio e equilíbrio assimétrico e dinâmico desses mesmos elementos, vale dizer, sua neoplástica.

Nos trabalhos de Ascânio Monteiro, o elemento (único) é a ripa e o princípio, a obtenção de certos ritmos virtovisuais, que se modificam segundo um jogo de luz e sombra. As regras do jogo são elaboradas no momento da criação da obra e preveem a posição simultânea do espectador diante do quadro e a deste na sala de exposição e até mesmo, como em seus últimos trabalhos, uma participação discreta do espectador.

 

A ripa, invariavelmente pintada de branco (com o objetivo de neutralizar tudo aquilo que não interessa ao jogo visual) é empregada geralmente de perfil sendo distribuída sobre o suporte segundo um ritmo quase sempre vertical, às vezes diagonal e, muito raramente, horizontal. A orientação vertical, porém, não tenciona a composição no sentido místico ou expressionista. Assim como o desequilíbrio próprio da diagonalidade é neutralizado pela ortogonalidade do “plano básico”. Sendo um artista construtivo, Ascânio não está preocupado em expressar necessidades interiores, mas a “pura visualidade”. Nele, o que importa é “menos a expressão e mais a visualidade” (Albers). Com as ripas, material extremamente simples, estrutura um jogo de claros e escuros, de sombras e luzes, de atração e repulsão, com resultados geralmente primorosos. Composições cristalinas, claras arquiteturas que abrigam, como um relógio de sol as sombras – descanso poético. Ritmos rigorosos, que contudo podem indicar, à primeira vista, uma composição estática. Porém o movimento existe. Virtualmente. E isto devido precisamente às ripas que retiram ao trabalho seu caráter pictórico, melhor, seus relevos resultam numa espécie de “pintura projetada”, para usar uma expressão de Herbert Read, que varia segundo a luz e o ângulo de visão do espectador.

No “campo” previamente estruturado para recebe-la, as sombras são projetadas pela luz vinda do exterior, em alguns casos as próprias ripas são “projetadas” para fora da “tela” sobre os painéis ou parede. É como se o relevo continuasse indefinidamente, virtualmente.

Aqui, portanto, outra característica do artista construtivo que Ascânio é. Tudo o que se relaciona ao “quadro” é parte significante dele e constitui significado: moldura, bordas do suporte, a parede, a luz exterior, o ambiente do espectador. Deixando a pintura de ser representativa, a moldura tornou-se necessária. Antes, ela funcionava como uma espécie de amurada, separando, isolando a realidade exterior da realidade de dentro do quadro, metáfora daquela. Eliminada, porém, a moldura real ficou outra, virtual, ainda visível nos quatro lados do suporte. Parte inútil, inaproveitada, esta “região” do quadro passou a preocupar Ascânio, que buscou integrá-la na própria composição, ciente de que o quadro deixou de ter um único centro focal. Como tal deixou de ser olhado unicamente de frente, podendo agora ser “penetrado” por qualquer parte, cara-a-cara, de frente, ou de esguelha, rente à parede. O quadro pode então começar ali em seu perfil. O problema ainda não se encontra plenamente resolvido em todos os trabalhos, mas caminha para a solução.

Participação

Abrindo mais e mais a composição, Ascânio precisou conhecer melhor ainda a topografia do quadro. Em alguns trabalhos, o próprio lado suportante deixou de existir, podendo ser visto em mais de uma posição, assim como o quadro foi virado pelo avesso, não se atando mais à parede. Não há mais costas, o avesso é o direito, o relevo virou escultura, assim como o baixo e o alto se completam, tal como o positivo e o negativo.

O dinamismo de seus relevos não é espontâneo, nem ocasional, melhor, não ocorre aleatoriamente, pois da estrutura da obra, integra o seu programa. Tanto que, em um desdobramento lógico das possibilidades éticas de seus relevos, Ascânio passou a buscar certos efeitos de permutação, isto é, as áreas claras e escuras (concentração ou dispersão de ripas) tornam-se permutáveis face à posição do espectador ou da iluminação exterior. Nos seus últimos trabalhos, Ascânio, libertando-se da parede e de suporte vertical, deixou o espectador livre para lidas com as ripas, com elas formando, numa área predefinida e constituída de quadro quadrados, novas figuras geométricas. O suporte, agora, é uma mesa e é sobre ela que o jogo se realiza. As possibilidades, porém, são limitadas pelo próprio artista, que sendo construtivo, prefere manter certas regras (para corrigir a emoção). Pois, para ele, como para Max Bill, a obra de arte “é uma realidade que possa ser controlada e observada” continuamente.

Lidando com elementos e princípios, Ascânio MMM busca igualmente “a expressão pura entre forma e lei”.

[texto publicado no catálogo da exposição individual de Ascânio MMM na Galeria Celina no Rio de Janeiro, em 1969]