Ascânio: indicações
para o futuro

Frederico Morais, 1972

Durante cerca de seis anos, Ascânio MMM realizou seus trabalhos construtivos a partir de um único elemento material, a ripa pintada de branco, com a qual obteve uma grande variedade de ritmos virtovisuais em seus relevos e esculturas. Em apenas um trabalho buscou a participação lúdica do espectador, que sobre uma espécie de mesa ia armando um jogo de claros e escuros, de luzes e sombras. Trabalho que depois seria transformado em múltiplo, agora em acrílico. Uma coerência surpreendente em um artista tão jovem.


Indicações

Na exposição que o artista realiza na Galeria do Grupo B, seu trabalho explode em várias direções, com uma pauta muito diversificada de problemas formais, entre outros, a introdução da cor e a preocupação com a “textura” em algumas peças, um amplo apelo à participação criativo-construtiva do espectador, a partir de pequenos módulos, efeitos óticos tridimensionais, volumes e monumentalidade. E a ripa é substituída pelo alumínio anodisado – sobras de perfis, canos, etc. Tanto no plano formal quanto no uso do novo material, Ascânio sugere mais indicações de obras futuras, caminhos, orientações, do que definições, em que pese os bons resultados alcançados em inúmeros trabalhos, especialmente nas esculturas.


Material e forma

A exposição de Ascânio MMM leva à discussão de vários problemas que se aplicam ao seu próprio trabalho e ao de outros artistas brasileiros. Por exemplo, cada material tem sua própria especificidade, digamos mesmo, tem um caráter, um significado. Adequa-se melhor a este ou aquele problema forma, funciona melhor ou pior como veículo para esta ou aquela ideia. O material nunca é neutro ou passivo. Até aqui, como se viu, Ascânio usou a madeira. Claro que ao pintá-la de branco, anulando de certa forma suas qualidades propriamente materiais, Ascânio fez da ripa um elemento formal de uma estrutura. Mas mesmo assim, ela permanecia como madeira – despojada, rude, simples. Na sua atual exposição, Ascânio ainda se prende, em muitos trabalhos, aos mesmos problemas formais – ritmos ascendentes, divergentes, convergentes, conflitantes –, mas o material resiste. Ou mais do que o material, o seu tratamento e acabamento. Se a madeira sugeria um certo descompromisso com o acabamento, o alumínio quer um tratamento mais “tecnológico”, menos artesanal. É assim que os parafusos que prendem o alumínio ao suporte de madeira passam a integrar seus quadro-relevos.
Mas como um dado negativo. Os trabalhos de Ascânio, efetivamente, não parecem aconselhar o uso de moldura (pois esta impediria bruscamente a expansão das linhas, que vêm do interior e que querem o espaço exterior), mas o artista não sabe ainda como resolver as bordas da “tela”. Se o problema já existia em seus trabalhos com ripas, agravou-se agora, com o alumínio. E ele existe principalmente porque a arte ótico-construtiva exige do espectador uma movimentação constante, por ela não é unifocal. Muitas vezes é pela borda do quadro que o espectador nele penetra. Surge o conflito entre o suporte e a obra, ela mesma. E mais um outro: entre a obra (incluindo-se aqui o suporte) e o local onde ela é colocada. Na presente exposição a galeria não valorizou, pelo contrário, prejudicou o trabalho de Ascânio: havia uma luta entre seus relevos e a parede, e às portas com seus batentes e as janelas, móveis, objetos, etc. O trabalho de Ascânio exige uma contemplação lenta, quase amorosa, um se-deixar-ficar-olhando aqueles ritmos muitos precisos e límpidos, um-se-deixar-ficar-jogando com os elementos construtivos à disposição.


Escultura

Claro que todos esses aspectos mencionados são mais evidentes nos relevos – ainda presos à parede e ao suporte. É por isso que as melhores indicações da atual exposição de Ascânio estão nas esculturas – inclusive aquelas montáveis ou desmontáveis pelo próprio espectador. Algumas maravilhosas, na solidez e monumentalidade de sua forma, e nas possibilidades ilimitadas de novos arranjos e combinações. E da combinatória surgem, às vezes, novos problemas, como a linha que resulta da junção dos elementos, ou aquele “comércio de espacialidade poética” entre cheios e vazios, áreas de sombra e de luz, ritmos verticais e horizontais, o dentro e o fora. O escultor
e o arquiteto estão cada vez mais próximos.


Cor

Da cor ainda receio falar. Ela surge imprevistamente em um dos seus relevos. Até mesmo com certa violência. O vermelho acentua o lado metálico de seu trabalho. Adquire qualidades sonoras. Em outro relevo, com canos roliços, o amarelo cobre grande parte da superfície. Ainda como energia. Mas há também uma cor discreta,
que se esconde nas bordas dos relevos, abaixo do alumínio. À sua maneira ela vibra. Qualquer dia vai lutar com o metal. Aliás, ao deixar de pintar uma parte das ripas
num dos trabalhos expostos no Salão Nacional, Ascânio fez disso cor. O problema estava colocado.

(texto publicado no jornal Diário de Notícias, Rio de Janeiro, em 21 de outubro de 1972)