Um escultor entre
o rigor da arquitetura e
o fascínio barroco

Frederico Morais, 1976

Na história recente da arquitetura brasileira já tivemos os MMM Roberto – Milton, Marcelo e Maurício. Dos três, apenas o último estea vivo, e seu filho, também arquiteto, é Marcio, ambos, aliás, sócios de outro M, Maurício Nogueira Lima. Nesta fartura de emes, letra que tem, aliás, algo arquitetônico, assim como “Minas é uma palavra montanhosa”, vamos encontrar outro arquiteto, que de uma só tacada reúne três: Ascânio MMM. Isto é, Ascânio Maria Martins Monteiro, 35 anos, português de origem, mas que mora no Rio desde 1959. Após estudar três anos na Escola Nacional de Belas Artes, transferiu-se para a de Arquitetura, onde se formaria. Entretanto, sua contribuição maior à arte brasileira é como escultor.

Uma escultura marcada pelo caráter construtivo e rigoroso da arquitetura, mesmo quando se deixa encantar por soluções barrocas, barromínicas. Pois sua escultura, feita exclusivamente com ripas de madeira, não se caracteriza nem pela subtração, nem pela adição de elementos. Isto é, seu trabalho não se confunde nem com o do escultor tradicional que alcança seu intento desbastando ou retirando parte do bloco original (madeira, gesso, mármore, pedras, etc) nem com o dos autores de Objetos (no sentido “pop” ou “povera”) que, partindo de apropriações de elementos já descartados pela sociedade industrial ou consumista, lhe injetam novos significados com a criação de objetos outros.


Construção

A linha seguida por Ascânio é outra – a construção. A arte construtiva já foi definida como sendo elemento mais princípio. Nos relevos e esculturas de Ascânio, o único elemento, como já foi dito, é a ripa, invariavelmente pintada de branco (na mostra que o artista vai inaugurar logo mais no Museu de Arte Moderna apresentará, também, trabalhos feitos com perfis de alumínio, porém, na peça maior, medindo seis metros, aparecem pintados de branco, igualando-se, assim, à ripa) e, o princípio, a obtenção de certos ritmos virtovisuais que se modificam segundo um jogo de luz e sombra (nos relevos) ou em função dos deslocamentos do espectador (nas esculturas).

 

E assim como Mondrian, durante 23 anos, trabalhou exclusivamente com verticais/horizontais e as três cores puras, Ascânio há dez anos, quase, só lida com a rima rica da ripa. O resultado, porém, não, não é um soneto de valor parnasiano, mas a criação de puros espaços, quase arquiteturas, que poderiam ser mesmo habitáveis, se já não o são, neste momento, pelo olhar que passeia vago-vago, vagaroso, vagueante nos caminhos e descaminhos de suas esculturas, na luz e na sombra de seus relevos. Todo significado emana da pura visualidade. Se, às vezes, sob certos ângulos, a forma escultórica adquire um vago caráter alusivo a insetos ou bichos, se suas formas enoveladas, encaracoladas, apesar de estáticas, parecem serpentear pelo chão, como se estivessem vivas, não é intenção do artista sugerir tais efeitos de cunho expressionista. Nada pretende dizer o artista fora dos limites virtuais de suas esculturas – o puro prazer visual. O sonho, se ele o autoriza, deve ficar restrito às “escadarias” de seus relevos ou nas curvas ou contra-curvas, sinunosidades ou volutas de suas esculturas.


Ciclo

Ascânio começou a trabalhar em artes plásticas em 1965, usando pequenos módulos de madeira. Nesse momento, uma influência parece evidente, a de Sergio Camargo. Contudo, como confessa o próprio artista, o grande impacto que teve foi diante dos relevos de Victor Pasmore, o artista inglês presente à Bienal de São Paulo. A ripa surgiria logo depois, impondo um estilo próprio, mas que, naturalmente, apresenta pontos de contatos com a obra de outros artistas, brasileiros ou não, que têm uma linguagem construtiva. Durante algum tempo (tal como se pode ser na última exposição individual que realizou no Rio, ora antiga Galeria do Grupo B) andou trabalhando com perfis de alumínio, em peças menores, que ele geralmente situa sobre a mesa, convidando à participação lúdica do espectador. Aparentemente, entretanto, Ascânio quer esgotar as possibilidades da ripa para, então, retomar a aventura do alumínio. Tudo indica, portanto, que a mostra do MAM é mais o encerramento de um ciclo do que propriamente abertura de nova fase.

Em termos geracionais, Ascânio é contemporâneo de Wanda Pimentel, Raymundo Colares, João Carlos Galvão e Antonio Manuel. Os dois primeiros, partindo de uma iconografia urbana, chegaram a resultados muito depurados, dentro de esquemas minimalistas. Antonio Manuel é o mais expansivo e agressivo, optando por uma linguagem geométrico-construtiva, num momento em que a figura reinava fortemente após o advento da Pop-Art. Pode-se  mesmo falar de um neo-construtivismo, depois da fase mais ascética e rigorosa do concretismo de Weissmann ou Amilcar.


“Pobre”

Entretanto, a propósito de Acânio talvez fosse mais adequado falar-se de um construtivismo “pobre”, sobretudo devido às conotações proporcionadas pela ripa que, isoladamente frágil, desprotegida e quase desengonçada na sua timidez de material não-nobre, sem hierarquia, adquire, entretanto, nas construções de Ascânio surpreendente riqueza. “Pobre” e brasileiro. Tão “pobre” quanto o concretismo de Volpi. Diria que a ripa está para Ascânio como a têmpera está para Volpi. Se este, com sua sabedoria, de opereario, tempera a têmpera fazendo a cor ondear sobre a tela-mar onde navegam mastros, bandeirolas e fachadas de casas proletárias, Ascânio movimenta a ripa com a mesma habilidade fazendo-a deslizar sobre si mesma, para espaços interiores ou abertos, de surpreendente riqueza.

Porém, se o partido de Ascânio é construtivo, não consegue ele esconder uma certa atração pelo barroco. Ao movimentar a ripa, fazendo-a girar sobre seu próprio eixo, Ascânio rompe com o imperialismo do ângulo reto, surgindo, em consequência, estruturas curvilíneas, que são como que os relevos virados pelo avesso, provocando cambalhotas no espaço, como num momento de euforia barroca da forma. Sua escultura insere-se, assim, duplamente na tradição brasileira: a raiz barroca e a vontade construtiva.

(texto publicado no jornal O Globo,
Rio de Janeiro, em 26 de agosto de 1976)